Envelhecer é punk

 



Eu me lembro claramente de alguém me perguntar a minha idade e eu responder: 16 anos. Juro. Parece que foi ontem. O que acontece é que meu cérebro não acompanha a velocidade com que o tempo passa. O resultado disso é que me pego, às vezes, pensando que ainda sou aquela adolescente tranquila, sem muitas preocupações, que adorava dormir um pouquinho depois do almoço e não precisava nem passar batom, pois já acordava linda.

Contudo, quando acordo e percebo que o meu dia já está cheio de compromissos inadiáveis antes mesmo de começar; quando lembro que tenho que engolir o café para levar as crianças para a escola, fazer fisioterapia (pois luxei o meu ombro) e que tenho vários boletos para pagar, vem o choque de realidade. É um choque que atravessa a alma.

Quando estou em algum lugar e perguntam a minha idade, tenho que pensar um pouco antes de responder: 47 anos. Teve um dia que comecei a fazer contas, pois eu simplesmente não acreditava que o tempo passou tão rápido.

O olhar no espelho também muda bastante. A sensação que tenho é de que meu rosto vai caindo um pouquinho a cada dia — assim como a minha autoestima. Sair na rua é um pouco estranho, pois parto de um ponto em que era impossível não ser notada (modéstia à parte) para um ponto em que me sinto invisível.

O engraçado disso tudo é que, da mesma maneira que ao ter um bebê não recebi um manual de instruções, também não fui informada sobre como aceitar, entender e, por ventura, curtir o envelhecer. Acho bem difícil.

Sei que ainda não sou idosa, mas mais da metade da minha vida já se passou e gostaria de aproveitar o resto dela com muita dignidade e felicidade. O oposto de envelhecer é morrer nova, e não gostaria da segunda opção. Estou em um ponto em que preciso me reencontrar, até mesmo no meu jeito de vestir. Não que uma pessoa mais madura não possa usar o que quiser, mas, na minha percepção, algumas roupas que tenho já não retratam mais quem eu sou.

Vejo muitas pessoas passando pela rotulada “crise da meia-idade”. A forma de se reencontrarem e se reafirmarem varia bastante. Algumas compram carros bem caros, pois obviamente se sentem mais poderosas com tal atitude. Outras recorrem a procedimentos estéticos para tentar ganhar um pouquinho mais de colágeno. O problema é que nem sempre isso dá certo. O que ocorre é que, às vezes, os traços físicos mudam de uma forma meio estranha. Quando mal-feitos, o efeito é o contrário: em vez de ficarem mais atraentes, transformam-se tanto que ficam disformes, o que piora ainda mais a autoestima.

Não sei ao certo qual é a solução para isso, mas percebo que cultivar o amor-próprio, sem se preocupar com a validação dos outros, é o caminho. Sentir-se bem com o que se tem, com os presentes que a vida nos deu e ainda dará; ser grata pela família, pelo emprego ou até mesmo por ter um cantinho em casa para ler e assistir à TV em um dia frio comendo pipoca... são coisas que esquentam o coração de qualquer um, e isso precisa ser relembrado sempre.

Além disso, eu tenho que me mimar, me cuidar, me validar, sem a necessidade de que outra pessoa faça isso por mim. Quero viver com muita alegria e paz todos os anos restantes da minha jornada. Tenho qualidades que os mais novos não possuem.

Eu tenho alguns exemplos em minha mente de mulheres lindas, fortes e poderosas em todas as faixas etárias. Sempre que fico insegura, lembro-me delas, o que serve de parâmetro para quem eu quero ser. Confesso que Beyoncé e Jane Fonda estão na lista.

Desejo a vocês muito amor-próprio e felicidades por toda a vida.

Estamos juntas.

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