Vocação profissional: incertezas eternas


 

É interessante observar como a nossa vida profissional caminha ao longo dos anos. Na adolescência, por volta dos 18 anos, somos obrigados a escolher um curso na faculdade.

Lembro-me de olhar para um formulário da escola e ter que marcar um X na profissão que decidiria o meu futuro. Eu olhava para aquele papel sem a menor ideia do que fazer. Aquilo me angustiava demais.

Fiz testes vocacionais que mais me confundiram do que ajudaram. E, como uma adolescente que não sabe o que marcar na prova, acabei “colando” da minha melhor amiga. Ela escolheu Administração de Empresas e falou maravilhas da profissão. Então marquei essa opção também. Nem preciso dizer: foi um desastre.

Na faculdade, eu simplesmente não entendia o que estava fazendo ali. A maior parte dos colegas eram herdeiros milionários se preparando para administrar as empresas da família. Eu me sentia completamente deslocada.

O tempo passou. Eu me formei, fui para o mercado de trabalho… e fiquei desempregada. Simples assim.

Foi então que descobri que, na verdade, eu amava o Direito. Fiz outra graduação. E essa segunda formação me rendeu frutos: passei em um concurso público, conquistei funções de confiança no meu trabalho e encontrei alguma estabilidade.

Mas agora, aos 46 anos, me vejo novamente como aquela menina de 18: sem saber se é isso mesmo que eu gostaria de fazer da vida. Como pode?

O mais curioso é perceber que muitos da minha idade sentem exatamente o mesmo. Cumprimos o “protocolo da vida”: ensino médio, faculdade, às vezes até duas faculdades, anos trabalhando na área… e, no entanto, não estamos felizes. Nem de longe.

Conheço professores que gostariam de ser arquitetos, advogados que se descobriram escritores, psicólogos que sonham com outra carreira. E todos perdidos, como eu, presos nesse lugar chamado “meia idade”.

E o que me assusta é perceber que ganhar dinheiro, hoje, pouco tem a ver com esse modelo tradicional. Esse protocolo passado de geração em geração.

Profissões que nem existiam na minha lista da escola agora enriquecem pessoas no mundo inteiro: influenciadores, especialistas em inteligência artificial, criadores de cursos online. Gente desfilando com carros importados enquanto a gente tenta entender o que está acontecendo.

Cresci vendo meus pais e avós indo trabalhar, marcando ponto, respeitando o horário de almoço e recebendo o salário no fim do mês. Fui criada para isso. Mas hoje estou nessa “geração sanduíche”: esmagada por crenças antigas enquanto tento orientar um filho que provavelmente terá uma profissão que talvez nem exista ainda.

No meio disso tudo, eu me sinto perdida. Frustrada por não me realizar totalmente no que faço, e ao mesmo tempo curiosa — quase ansiosa — para me arriscar nesse mundo novo, me encontrar e, quem sabe, ganhar um dinheirinho nessas novas possibilidades.

Acho que só quem está nessa linha de corte entende.

Olho para trás e vejo que o velho padrão profissional está ultrapassado. Olho para frente e vejo um mundo desafiador, que exige que a gente corra uma maratona para acompanhar as mudanças.

 Mas vamos na corrida. Porque quem ficar parado, esse sim será engolido.

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