Ninguém muda ninguém: a escolha diária

 


Ninguém muda ninguém. Esta é uma afirmação bem antiga, bem óbvia, mas pouquíssimo aplicável na vida das pessoas.

Quando conhecemos alguém, frequentemente nos esquecemos de que esta outra pessoa vem carregada de várias bagagens: vivências, traumas, alegrias — enfim, um pacote bem recheado de sentimentos e crenças que não nos é apresentado logo no primeiro encontro.

Pelo contrário, no momento em que um novo amor entra em nossas vidas, queremos ouvir mais do que falar e, de preferência, concordar com os pontos de vista o máximo possível, para não criar conflitos. Afinal, aquele ser maravilhoso, atraente e perfumado nos gera uma atração física tão intensa que não estamos dispostos a discutir a teoria da relatividade de Einstein. Queremos apenas curtir o momento.

Quando um simples sorriso gera uma faísca e, da faísca, surge um incêndio, as emoções tomam conta da razão. Razão? Quem é esta? Quem está no comando são os sentidos, as emoções — sejam elas a carência, a paixão, a atração, a posse, o ciúme, enfim, todo o pacote explosivo que guardamos dentro de nós.

Com o passar do tempo, surgem alguns lampejos de razão, pequenas dúvidas e questionamentos que logo se dissipam em meio ao carinho e à paixão. Os dois lados se veneram de tal forma que um simples olhar, um simples sorriso, são capazes de preencher todo o espaço do pensamento e transformar completamente um dia. E, como uma droga extremamente viciante, ficamos dependentes da presença daquele outro ser o tempo todo. Ser aceito é uma necessidade e, por muitas vezes, nos anulamos para manter esse processo de prazer e felicidade.

Esse estado de “letargia” dura um bom tempo — para alguns mais, para outros menos —, mas é certo que, fatalmente, surge o dia em que nos deparamos com o fato de que aquela pessoa tão linda é, na verdade, um ser humano repleto de defeitos e qualidades.

Então, cara a cara com a realidade, refletimos se vale a pena ou não prosseguir com o relacionamento, apesar de. Apesar da teimosia do outro, dos momentos de egoísmo, das demonstrações de insegurança, da falta de proatividade para solucionar problemas, mas também apesar do carinho, dos beijos apaixonados e do cuidado com o nosso bem-estar. E, como um bom chefe de cozinha, tentamos pesar todos os ingredientes da relação para decidir se a receita final será saborosa.

Acho que o grande segredo está na convivência. Quanto mais convivemos antes de firmar compromissos maiores, mais aptos nos tornamos a decidir se conseguiremos prosseguir, mesmo diante de tudo isso. Quando temos consciência de que também possuímos defeitos insuportáveis e de que não mudaremos tão facilmente, passamos a nos perguntar, silenciosamente, todos os dias: ainda vale a pena continuar?

Para muitos, logo no início do caminho fica claro que não vale a pena prosseguir. Para outros, depois de uma longa jornada, a conclusão é que valeu até aquele momento, mas não dá mais. E, para uma pequeníssima fração da humanidade, o caminho continua sendo percorrido de mãos dadas por inúmeros anos. 

Por vezes, no meio da caminhada, surgem buracos enormes que não nos permitem avançar. A sombra presente na personalidade de um dos parceiros mostra-se grande demais e passa a escurecer todo o trajeto.

Acredito que, para chegar até o fim da vida ao lado de alguém, seja necessária uma grande dose de paciência, aceitação e a percepção de que estamos junto de um ser tão humano quanto nós. Mas, principalmente, é preciso uma boa dose de sorte. Sorte, sim, pois não há como prever como essa pessoa irá se comportar como pai ou mãe, como avô ou avó, como genro, como cunhado. Os papéis vão surgindo, e os resultados aparecem aos poucos.

Quando vou contratar um profissional para realizar determinado trabalho, procuro, logo no início, estabelecer regras claras e deixar explícito o tipo de serviço que espero receber.

Da mesma forma, nos relacionamentos, os acordos são necessários para que algo seja construído sobre uma base sólida e bem sedimentada. Mas não sou ingênua: sei que surgem tempestades, furacões e todo tipo de desastre capazes de derrubar até a melhor das estruturas. É nesse ponto que surge outro segredo fundamental: o amor-próprio é inegociável.

Ser feliz acompanhado é maravilhoso, mas aprender a ser feliz sozinho é algo grandioso. Apreciar a própria companhia, cuidar-se física e emocionalmente, comprar para si mesmo um presente de vez em quando e jamais se colocar em segundo plano.

Buscamos somar ao encontrar um grande amor. E o que torna toda a história realmente bonita é a capacidade de aprender com o outro, perdoar, admirar suas incríveis qualidades e, claro, colher os frutos de tudo o que foi construído juntos.

Contudo, não se engane: dá trabalho. Não é fácil.

Mas tudo o que é verdadeiramente compensador exige esforço. Busque alguém que esteja disposto a se esforçar, que aceite carregar uma “tocha olímpica” sem deixar o fogo se apagar, independentemente do que aconteça.

No fim, não se trata de mudar o outro, mas de caminhar ao lado de alguém que escolha, todos os dias, caminhar também.

Afinal, acredito que a lei da atração é inevitável: o universo aproxima aqueles que vibram e desejam seguir na mesma direção.

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