Amizade: Encontros e desencontros
A amizade sempre representou uma dificuldade para mim. Acredito que o início de tudo tenha se dado quando eu tinha por volta de oito anos de idade e comecei a compreender, ainda de forma ingênua, o que significava me relacionar com outras pessoas.
Naquela época, eu carregava uma inocência enorme. Em minha mente, ser amigo significava lealdade absoluta, irmandade infinita e presença constante. Eu tinha duas amigas, minhas vizinhas, que eram tudo para mim. Nos finais de semana, eu acordava, tomava o café da manhã e queria imediatamente chamá-las para brincar. Lembro-me de que só parava para almoçar e lanchar, voltando para casa apenas quando começava a anoitecer.
Nossa imaginação corria solta. Éramos professoras, cozinheiras e até construtoras. Uma delas tinha uma casa com um quintal enorme e inúmeros brinquedos. Eu me transportava para um mundo paralelo, onde tudo era alegria, leveza e pertencimento.
Por amá-las tanto, conversava com elas sobre tudo o que me fazia feliz. Falava das minhas viagens de férias, dos brinquedos que ganhava e acreditava, sinceramente, que dividir essas alegrias as deixaria tão felizes quanto eu.
Contudo, certo dia, após voltar do almoço, escutei-as conversando atrás da porta. Diziam que eu era muito chata, que só contava vantagens, que me vestia mal, entre outras coisas das quais não consigo me lembrar com precisão. O que jamais esqueci foi a sensação: uma punhalada no coração. Fiquei imóvel, sem reação. Fui embora e chorei. Depois daquele dia, não consegui mais brincar com elas. Permaneci triste por um longo tempo, até conseguir, com muito cuidado, me abrir novamente para uma nova amizade.
Durante a adolescência e a vida adulta, conheci muitas pessoas de bom coração, mas também enfrentei diversas decepções. Por inveja, ciúmes, apego ou insegurança — sentimentos humanos, inevitáveis — tanto nos outros quanto, em alguns momentos, em mim mesma.
Aprendi que é raro encontrar alguém, inclusive dentro da própria família, que se alegre cem por cento com as conquistas do outro. Seja um sucesso profissional, uma viagem inesquecível ou a realização de um grande sonho, nem sempre há espaço para uma felicidade compartilhada de forma plena.
Meu pai, sempre muito sábio, costumava me aconselhar a não me expor demais. Dizia que o amor que ele e minha mãe sentiam por mim era infinito e que se alegravam genuinamente com minhas conquistas. Porém, alertava que algumas pessoas, não por maldade, acabavam se comparando e, ao ouvir relatos de tantas coisas boas, sentiam tristeza e inveja.
Essa lição se confirmou de maneira marcante quando uma “amiga de faculdade” chorou em meu noivado. Não foi de emoção, foi de tristeza. Ela não conseguiu disfarçar e, mais tarde, confessou que chorava por perceber o quanto estava distante de viver aquela realização em sua própria vida. Senti perplexidade, tristeza e até pena. Ali compreendi, de forma definitiva, que nem tudo pode — ou deve — ser exposto, mesmo a pessoas próximas.
Com o tempo, percebi que, apesar das decepções, existem sim pessoas amáveis, generosas e que genuinamente prezam pelo nosso bem-estar. Ainda assim, passei a organizá-las em “prateleiras imaginárias”.
Nas prateleiras mais distantes, ficam conhecidos, vizinhos e colegas de trabalho: pessoas simpáticas, com quem troco cumprimentos cordiais e mensagens em datas comemorativas.
Em uma prateleira mais próxima, estão os amigos que realmente se importam. Aqueles que ligam, mandam mensagens, sentem falta e desejam estar presentes. O cuidado é recíproco, mas ainda assim existe um limite saudável. Não exponho minha intimidade conjugal, não conto tudo o que acontece comigo e as visitas à minha casa são pensadas e organizadas.
Na prateleira mais próxima de todas estiveram minha mãe e meu pai. Para eles, não havia limites de intimidade. Minhas lágrimas eram deles, assim como meus sorrisos. Infelizmente, eles não estão mais neste plano da vida. Nunca mais consegui dividir minha existência com alguém com tamanha sinergia.
Ainda assim, essa prateleira não está vazia. Meu marido, meus filhos e meus irmãos ocupam esse espaço tão especial. Com eles, compartilho alegrias e dores, confio e busco retribuir o amor que me oferecem.
Minhas prateleiras são dinâmicas. Às vezes, alguém se aproxima; em outras, se afasta. E assim vou administrando o fluxo das pessoas que entram e saem da minha vida.
Dessa forma, consegui organizar um pouco as emoções e os traumas que carrego nos relacionamentos interpessoais. A boa notícia é que tem funcionado muito bem.
Sou extremamente feliz e grata por todos que estão e por todos que passaram pela minha vida. Mas acredito que o maior segredo é ser completa em minha própria companhia. Olhar para si mesma com amor e ser uma boa amiga de si quando não há ninguém por perto é profundamente libertador.
Dica de leitura: Amigos, no final de cada texto eu posto um link com uma dica de algum livro que me ajudou, alegrou ou me emocionou de alguma forma. Hoje minha recomendação é o livro Talvez você deva conversar com alguém: Uma terapeuta, o terapeuta dela e a vida de todos nós.

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